História de uma traição: Jorge Luis Borges e Joaquim
Silvério dos Reis
Ouro Preto Jornal de Patos terça-feira, agosto 11,
2026
Por José Eduardo
de Oliveira
A Antônio Luiz Vieira
HOTEL TÓFFOLO - RUA TIRADENTES - OURO PRETO -1946
Em julho
de 1945, o escritor argentino, Jorge Luis Borges, esteve em Ouro Preto, onde
permaneceu por quase um mês. Seus propósitos - segundo ele -, não tinham nada a
ver com a carta manuscrita de Gunnar Erjord, que “... elucidava completamente o
mistério de Tlön” (Tlön, Uqbar, Orbis Tertius), e que tinha sido carimbada e
postada naquela cidade na agência dos Correios e Telégrafos da Rua Direita.
Não que Ouro Preto ou o Brasil, significasse alguma coisa
para ele, que sempre teve preferência pela América do Norte ou o Oriente em
suas narrativas fora da América Latina. A ideia de retomar, sua “História
universal da infâmia” e o “tema do traidor e do herói”, foi que o levou a fazer
aquela difícil e penosa viagem em lugar tão remoto, no coração das Minas
Gerais. Ele havia lido sobre a “Inconfidência Mineira” na primeira edição da
“História do Brasil”, de Robert Southey, publicada em inglês em 1810 e gostaria
de escrever ou inserir, em uma futura “História Latino-americana da infâmia” ou
em uma outra coletânea, a história não do desditoso e heroico Alferes, Joaquim
José da Silva Xavier, dito o Tiradentes, daquela inconfidência, mas do execrado
Joaquim Silvério dos Reis, o traidor. Para ele, o espelho do traidor
trazia sempre a imagem do herói, ainda que somente o espelho soubesse disso. Hotel
Toffolo – Rua Tiradentes – 1946
Mas, desta vez gostaria de ir ao cenário real e irreal da
trama e de conhecer a antiga Vila Rica onde já estiveram outros estrangeiros
insignes, tais como o inglês Richard Burton, o francês Saint-Hilaire, ambos no
século XIX - o primeiro, aliás, esteve em Meca disfarçado de muçulmano, e seria
um dos descobridores das nascentes do Rio Nilo. Também, um amigo português, lhe
havia falado de um manuscrito do Conde Assumar, que governou Minas por volta de
1720, quando teve de enforcar outro inconfidente, Filipe dos Santos e, que,
ali, “A terra parece que evapora tumultos; a água exala motins; o ouro toca
desaforos; destilam liberdade os ares; vomitam insolências as nuvens; influem
desordens os astros; o clima é tumba da paz, o berço da rebelião”.
Borges queria sentir o cheiro da “Potosí brasileira”, onde
tanta traição e infâmia haviam escrito com ouro, fogo e sangue a história
daquela cidade magnífica e espectral. E o cenário da que poderia ter sido a
primeira independência brasileira, feita de fato por brasileiros, era propício
para uma narrativa onde a figura, não do herói Joaquim José - cuja cabeça havia
sido “exposta em poste de ignomínia” na praça central da antiga Villa Rica, até
que o tempo a consumisse -, mas do traidor Joaquim Silvério, cuja memória se
encontrava submersa em brumas, as mesmas brumas que naquela época do ano eram
tão densas e viscosas que podiam ser palpáveis. As brumas, umas corrubianas
frias que faziam desaparecer os casarios, os incontáveis campanários, as
escarpas talcosas e nuas dos arredores e as efígies de homens e animais, ainda
que fosse de dia. Sim, seu interesse era pelo obscuro português, Silvério dos
Reis, mas não queria fazer um relato histórico do delator, mesmo porque isso
seria quase que impossível por falta de evidências e fontes escritas, pois no
Brasil, eles esquecem até mesmo os heróis, quanto mais os traidores.
Entretanto, ele queria ser o mais plausível com relação aos
verdadeiros motivos da traição de Silvério dos Reis, já que achava pouco
provável que ele tenha feito sua delação naquele infausto ano de 1789, apenas
para se livrar de dívidas do tempo em que ele era contratador dos direitos de
entradas na Capitania de Minas. Apesar de que a delação foi “premiada”, digamos
assim, e regiamente compensada e o “Judas” teve o perdão das suas dívidas e
saiu ileso, no entanto teve que se mudar de Minas Gerais e acabou tendo que
exilar-se no nordeste brasileiro, contudo, continuou sob a condição de “fiel
vassalo”, inclusive com mais de um sobrenome: Montenegro ou Leiria (que até
então não usava nunca).
Para Borges, o motivo da traição era de natureza mais
simples e delicada: era uma traição semântica. Ou seja, para os mineiros
Silvério dos Reis era um traidor que abortou a república brasileira. Para dos
Reis, os brasileiros é que eram traidores e que cometeram “o crime de lesa
majestade”, já que eram colonos e deviam fidelidade à rainha Maria I, de
Portugal, a Louca.
O significado do traidor e do herói, portanto, não passaria
de pontos de vistas e dependeria do enunciador. E os traidores foram os que
conspiravam em conventículos juntos com o alferes que foi enforcado e perdeu a
cabeça, literalmente. Se os “inconfidentes”, à maneira dos americanos das 13
colônias, se sentiam lesados, eles também deveriam conjurar e se libertar, era
esse o espírito do tempo. Assim, o traidor dos inconfidentes era herói para os
portugueses e os inconfidentes seriam heróis para os mineiros, mas isso
aconteceu muito tempo depois.
No século XVII, outro traidor, Domingos Fernandes Calabar,
natural de Porto Calvo, Alagoas, também faria opção e trairia seus
conterrâneos. Só que com um detalhe, era brasileiro e se opôs aos brasileiros,
ou melhor, aos portugueses-brasileiros (ou luso-brasileiros) em defesa de
outros colonizadores, os holandeses. Este episódio, também havia interessado a
Borges, sobretudo porque nesta traição, quem foi enforcado não foi o herói que
lutava contra outros colonizadores, mas o traidor que lutava a favor dos colonizadores
holandeses. E, diga-se de passagem, se existisse algum tipo de colonização boa,
a dos holandeses seguramente, foi considerada melhor para o mulato Calabar.
Borges, dizem, ouviu depoimentos no Hotel Tóffolo. Neste
mesmo hotel, de onde se podia avistar sobressaltado e irrequieto o portentoso
prédio de “Casa dos Contos” onde o poeta Cláudio Manoel da Costa, um dos
inconfidentes foi encarcerado, foi encontrado morto no mesmo ano da delação, e
assim, pode concluir perplexo e frustrado, que se ele não fosse embora
rapidamente para Buenos Aires, era ele que seria enforcado, já que a História
já havia acontecido e mais, já estava escrita e que Joaquim Silvério dos Reis
tinha feito a delação simplesmente para se ver livre de suas dívidas e receber
favores da coroa portuguesa. E que ali, na mesma rua que tinha o nome do herói
enforcado, Tiradentes, era inconcebível, outra história, com outro desfecho,
ainda que ficcional. Naquele lugar, ouvindo diuturnamente o repicar dos
sinos, o herói seria sempre o herói e o traidor seria sempre o traidor e não
valia a pena serem lembrados, quanto mais serem questionados e serem enredos de
alguma narrativa...
Borges, nunca mais voltou ao Brasil. Nunca mais tocou
no assunto e suas anotações, seus manuscritos inéditos sobre os
“inconfidentes”, foram lacrados em um envelope de pergaminho e postado ali
mesmo para um destinatário ignorado numa tarde brumosa e fria. Naquele dia a
névoa corrubianosa era tão espessa que Borges ao retornar para o hotel cruzando
a ponte dos Contos, teve a impressão de que se encontrava no Século XVIII e a
qualquer momento surgiria um oficial da tropa paga do regimento de Vila Rica e
o levaria preso por conspirar contra a História oficial do Brasil português...
P.S.: Um Joaquim mineiro queria criar uma pátria que não
existia e o outro Joaquim estrangeiro não permitiu e o delatou para pessoas de
outra pátria que abortou o nascimento de outra pátria, a brasileira. Ainda hoje
brasileiros querem entregar nossa pátria para estrangeiros. Outro dia mesmo o
presidente da República, citou Joaquim Silvério dos Reis ao se referir a um
candidato lesa-pátria.
Escrito em 1993 em Uberaba - Revisto em 1999 e 2026.
José Eduardo de Oliveira é licenciado em História pela
Universidade Federal de Ouro Preto
Publicado em agosto de 2026 no:
https://www.jornaldepatos.com.br/2026/08/historia-de-uma-traicao-jorge-luis.html

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