segunda-feira, 25 de maio de 2026

VILA RICA DE SYLVIO DE VASCONCELLOS, UM LIVRO DE 70 ANOS QUE EU FURTEI E DEVOLVI

 

VILA RICA DE SYLVIO DE VASCONCELLOS,

UM LIVRO DE 70 ANOS QUE EU FURTEI E DEVOLVI

 

José Eduardo de Oliveira

 


O objeto do desejo – Na folha de guarda tem uma assinatura ilegível e uma data: 2/5/57 – Esse é meu e foi comprado, provavelmente na Estante Virtual

Do furto

 

Num antigo Código Penal que pertenceu ao meu pai editado em 1968, está qualificado que, “Furto – Art. 155. Subtrair, para si ou para outrem, coisa alheia móvel: Pena – reclusão, de um a quatro anos, e multa de quinhentos cruzeiros a dez mil cruzeiro”.

Já, “Roubo Art. 157. Subtrair coisa móvel alheia, para si ou para outrem, mediante grave ameaça ou violência a pessoa, ou depois e havê-la por qualquer meio, reduzindo à impossibilidade de resistência. Pena – reclusão de quatro a dez anos, e multa de três mil cruzeiros a quinze mil cruzeiros.”

Portanto, furtar é apenas  surrupiar, cabritar, passar a mão, dar o tombo sem violência. Os políticos furtam muito. Geralmente os furtadores de livros não são violentos.

 

 

O meu furto

 

Eu morava em Belo Horizonte e não conseguia passar no vestibular da Universidade Federal de Minas Gerais e nesse ínterim, e quando não estava namorando, trabalhando, dentro de um cinema ou de um boteco qualquer, ou viajando para “os Patos” ou Ouro Preto, eu estava lendo, em casa ou em uma biblioteca. Tinha especial predileção por duas, uma que ficava na Rua da Bahia, um instituto de idiomas chamado “ICBEU-Instituto Cultural Brasil e Estados Unidos”, que permitia a qualquer cidadão frequentar sua biblioteca e a outra, que ficava na Praça da Liberdade, que era outro Mundo à parte, a “Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa”.

Essa maravilhosa, valiosa e imensa biblioteca havia sido criada em 1954, e tinha sido originalmente um projeto de Oscar Niemeyer. Mas isso não vem ao caso.

Como em toda biblioteca ela possuía um acervo em que eram permitidos empréstimos e uma seção em que não eram permitidos empréstimos e outra também, a que se chamava, “Mineiriana”, eu acho, e que guardavam os livros sobre Minas Gerais,  que também não poderiam ser emprestados.

Assim, até ao ano de 1981, quando fui aprovado para ir estudar em Mariana, no  Curso de História da Universidade Federal de Ouro Preto, frequentei aquele santuário, e além de retirar livros para ler em casa, pesquisava também na seção de livros raros e os da Mineiriana. Esse lugar mirífico e inebriante era a meu predileto.

E ali me deparei com a pequena grande obra de Sylvio de Vasconcellos: “Vila Rica :  formação e desenvolvimento – residências.”  Li, mas não reli, eu queria o livro para mim.  Esse impulso nunca havia me dominado tão fortemente. Tudo no livro me fascinava, a cor da capa, o peso dele, as fotografias em preto-e-branco, as ilustrações, os mapas. E a escrita de Sylvio de Vasconcellos que até então nunca tinha visto ou ouvido falar? Eu cheirava o livro. Sonhava com ele. Até então nunca tinha sentido tanto desejo e tesão por nada, nem por ninguém, nem por aquela mulher que me fazia perder noites de sono e era “a razão de minhas cachaças”, naqueles sórdidos tobas sujos da rua da Bahia, principalmente os da Galeria do Edifício Maletta e imediações. E além disso, a história de Vila Rica ali, era a mais perfeita história de Ouro Preto que eu amava tanto e onde depois fui morar por cerca de cinco anos.

Voltei lá vários dias. Mas não tinha coragem. Mas aquela coisa não saía de minha cabeça. Pensei até em pegar o livro e sair correndo. Mas tive calma.

Naquela época eu ainda tinha alguma consciência sobre o que era certo ou errado? Ainda era puro?

E lembrei aqui de Eduardo Frieiro, e de seu livro, “O Diabo na livraria do Cônego”, que seguramente frequentou aquela biblioteca inúmeras vezes. Eu era o diabo ladrão na Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa.

Não adiantou nada. Em certa noite, acho que planejei, coloquei uma blusa de frio, e nem sei se fazia frio e fui para a Biblioteca e penetrei na “Mineiriana”. Essas seções de livros raros sempre são separadas do resto e quase sempre desertas, lugares propícios para perpetrar ações furtulentas. E naquela época não existiam câmeras de segurança e as bibliotecárias e bibliotecários confiavam em sua clientela.

Era naquela noite. Tinha que ser. Eu suava frio, talvez tremesse. Estudei o ambiente em todos os ângulos e sorrateiramente ou apressadamente não me lembro, enfiei a coisa, o objeto que queimava em minhas mãos na parte da frente da calça abaixei a blusa. Estava feito. E agora? Como sair?

E para sair, parecia um autômato, lívido, devia estar não pálido, mas verde.

Saí do prédio esgueirando como uma serpente, atravessei a praça da Liberdade desci a rua da Bahia, passando pela rua  Tupis, atravessei a Avenida Amazonas e na rua Tamoios tomei um ônibus coletivo até ao Barrio João Pinheiro, no oeste do inferno que era aquela cidade onde os horizontes já não eram mais belos. Sem olhar para trás temendo ser abordado a cada segundo.

Em casa, já no meu quarto, escondi o livro entre uns livros que possuía. Não dormi naquela noite.

De madrugada tive coragem de folhear o livro. Agora era meu. Além dos carimbos e registros bibliotecário haviam algumas marcas humanas, escritos dedicatórias que hoje ignoro o que seriam.

Mas quando a aurora, não tão rósea como as de Homero, clareou o quarto também projetou um facho de luz cruel em mim. Senti que havia cometido um crime que não sabia qualificar e que talvez não tivesse em nenhum artigo daquele velho Código Penal de meu pai.

Primeiro as questões: eu precisava daquele livro? Quem mais iria precisar dele? Eu privei quantas pessoas daqueles conhecimentos contidos nele? O arrependimento me apunhalou como os “nobres colegas” ao arrogante César.

Estava com o livros nas mãos como que um cadáver que eu teria que ocultar e não sabia onde e nem como ou uma quantia que eu não sabia como gastar. E agora?

Vou devolver, pensei. Vou devolver!

Como?

Chegar lá e falar que peguei sem querer? Vou mandar pelo correio com remetente falso?  Vou deixar em cima da uma das mesas da biblioteca?

Não! vou deixar no mesmo lugar de onde retirei.

Meus amigos e minhas amigas, desfazer um crime é mil vezes pior que cometê-lo mil vezes novamente.

Refazer os mesmos caminhos até à estante. E o pior, muito pior foi o medo ser apanhado, não cometendo o furto, mas desfurtando. Só que desta vez não fui serpenteando como uma cobra mas, rápido como um rato que fugia com um naco de queijo, só que eu ia devolver o queijo, o livro, que queimava dentro de minha calça e o pior, perto de uma coisa que no momento estava inerte e frio como gelo.

Passei por tudo novamente e consegui. Consegui reparar o mal feito, mas tudo tem reparação?

“Disse o corvo, ‘Nunca mais’.”  Nunca mais disse o Corvo de Edgar Allan Poe.

E disse nunca mais farei isso de novo.  Mas na verdade, nunca mais voltei àquele templo conspurcado para sempre. 

 

Naquela época eu não sabia que já existia uma edição do livro, ‘Vila Rica” de 1977, em toda e qualquer livraria de Belo Horizonte e que, a edição de 1956 não era tão rara assim. Inclusive, hoje, na Estante Virtual, existem 9 exemplares desse livro, praticamente a preço de bananas. Mas será que isso iria importar? Eu se soubesse não iria fazer o que fiz, por causa daquele livrinho?  Não sei!

 

Ps.  Hoje mesmo consultei o site da “Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa”, e o livro ainda está lá, não sei se é o mesmo:


“Vila Rica : formação e desenvolvimento, residências/ Sylvio Vasconcellos. -

Rio de Janeiro : MEC/INL, 1956.

Exemplar nº161846 doação: Valmiki Villela Guimarães.
318 p.: il. ; 17 cm

O exemplar da Academia Mineira de Letras contém várias anotações feitas por Eduardo Frieiro no interior da obra em forma de comentários, análises, correções e acréscimo de informações ao conteúdo original.” - http://200.198.28.214/acervo/36120

 

Ps. 2  Sylvio de Vasconcellos, nasceu em Belo Horizonte em 1916, formou-se em arquitetura na Universidade Federal de Belo Horizonte em 1944. Com o Golpe Militar de 1964, e a aposentadoria compulsória em 1969, sua carreira foi interrompida em território brasileiro, mas continuou com suas aulas e sua produção bibliográfica no exílio na França, Chile e depois em Washington nos Estados Unidos onde morreu em 1979.

 

Infra, alguns livros e artigos que possuo aqui em minha biblioteca. 

Em tempo, todos conseguidos com o suor de meu rosto – nenhum furtado - como professor de História nos arrabaldes nessa cidade que atualmente fede, fedor oriundo não só de atividades humanas com fins lucrativos, mas das atividades desses mesmos seres humanos ao pensar, ou melhor, ao tentarem pensar. Eu acho.

 

SYLVIO DE VASCONCELLOS – BIBLIOGRAFIA, MINHA

 

1951- Arquitetura particular em Vila Rica. Belo Horizonte: Velloso & Cia. Ltda., 1951.

 

1951 - Arquitetura no Brasil: Sistemas Construtivos.  5.ed. [1979] Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais, 1956

 

1956 - Vila Rica : Formação e Desenvolvimento – residências. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Cultura, 1956.

 

1956 - Arquitetura Colonial Mineira. In: Primeiro Seminário de Estudos Mineiros. Belo Horizonte: Universidade de Minas Gerais, 1956. P. 59-77.

 

1959 – Formação urbana do Arraial do Tejuco. In: Arquitetura civil II. São Paulo: FAUUSP/MEC/IPHAN, 1975. P. 99-114.

 

1960 - Arquitetura: Dois Estudos. 2.ed. Goiânia: MEC/SESU/PIMEG-ARQ/UCG, 1983.

 

1966 - Mineiridade: ensaio de caracterização. São Paulo: Abril S. A. Cultural e Industrial, 1981.

1968 - Minas : Cidades Barrocas. 2.ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1976.

 

1977 - Vila Rica : Formação e Desenvolvimento – residências. São Paulo: Editora Perspectiva, 1977.

 

1979 - Vida e obra de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho. São Paulo:    Editora Nacional, 1979.

 

2004 -  LEMOS, Celina Borges (Org.) Sylvio de Vasconcellos : arquitetura, arte e cidade – textos reunidos. Belo Horizonte : BDMG Cultural, 2004 [com 60 artigos]

 

 

 

 

COVIL-20 ou o alfarrábio das perguntas

 

COVIL-20 ou o alfarrábio das perguntas

 

Para J.A.N.I.S.  e vocês raça humana, antes e depois

da pandemia...mesmo pensando que serão diferentes.

[só se for pra pior!]

 

é muita cobrança para um alvo de vírus:

pediram para eu escrever uma coisa e mandar

para vinte seres humanos sem questionamentos de

gênero, raça, espécie, política, pedigree e pureza

(um detalhe e nem de aroma ou viscosidade)

coisas otimistas...tem condições?

 

na verdade em 1964 eu tinha 10 anos

e hoje quando o ministro pede conta

e o que deveria pedir conta não pede

e presidente faz de conta que é probo

(ou proboscídeo)

e foi traído e esqueceu a idade do 04 .

eu acho que tenho 10 amigos [pedir 20 é phoda]

(agora parece que são apenas 9, pedi para uma amiga ir se fuder)

mas mandar 20 e-mails de sentimentos fakes

é romper com o iluminismo e retornar à escolástica.

 

fica difícil a questão política

não é a mesma de 74

(quando se perdia nas ruas de bh pensando que lá

era villa rica sem solidão, e não tinha eleição – só para rimar)

fica difícil em plena virose global

eu falar  que sou obrigado a

beber sozinho e ter ressaca sozinho

masturbar sozinho [tem outro jeito original?].

caralho é pandemia ou egodemia?

 

antes do fim:

meu reino por um capitão! [tradução livre de: My kingdom for a horse!”]

meu reino por uma propina!

meu reino por uma vacina!

meu reino por um auxílio emergencial!

 

o que mata menos?

o racismo?

a pandemia?

a sua indisfarçável voz em falsete?

o distanciamento social?

a mentira?

o preço do arroz?

o fechamento dos bares e prostíbulos?

o voto em prefeito e vereadores?

a sombra do fascismo?

 

três coisa eu aprendi no século XXI

duas eu esqueci e a terceira é a mesma

do século passado: uma merda piorada.

mas mesmo assim

eu ainda acho, ou tenho

quase certeza absoluta:

precisamos reagir

precisamos nos unir

pelo menos para

fazer uma vaquinha

para comprar uma bomba

de flit

para se não matar, pelo menos espantar

a nossa hipocrisia da aparência

a nossa arrogância

o nosso medo 

o nosso ódio

a nossa falta de coragem de olhar a realidade

a nossa solidão

e

et por cause

a nossa xenofobia de

amar

e

para ver se aceitamos

a nossa condição

animal que usa smartfone

só que como uma katana.

 

se não podemos

mudar de canal

podemos

pelos menos

desligar o celular,

não! não e não!

parar de reenviar

o que nem deveria

ter sido

enviado e

ninguém tem obrigação

de ver.

 

pega na minha mão e diga

quem eu sou?

parente?

amante?

amigo?

inimigo? (não precisa se identificar)

 

e o enigma:

qual vírus é melhor?

o vírus de bruços ou de barriga ou ventral?

ou

o vírus decúbito dorsal ou de costas?

 

como disse o velho Maiakovski:

"melhor morrer de vodca que de tédio!"

ou foi

de álcool em gel?

 

* Reciclado em novembro XXI, e mandado para aqueles [as] 10 ou nove amigas [os]

 

[ps. estou sóbrio e hoje é quarta...e vou parando aqui, estão batendo na porta, não é a morte, ela não bate para entrar, há milhões de anos ela mora conosco e tem uma vantagem, não tem celular, não reclama e nem soltam as tiras...]

quinta-feira, 21 de novembro de 2024

Como era o Aleijadinho? Retrato falado ou retrato forjado?

 

Como era o Aleijadinho? Retrato falado ou retrato forjado?

Notícias Jornal de Patos terça-feira, agosto 04, 2020

Por José Eduardo de Oliveira

Para Marilia que ficou sem Dirceu e sem um rosto, mas não perdeu nada.

 


Aleijadinho - Profeta Daniel em pedra sabão
Note se a base ou pedestal que não é em coluna
Congonhas/ 2013 - Foto: José Eduardo de Oliveira

 

Depois de ler aqui, no Jornal de Patos (24/07/2020), a matéria “Aleijadinho, de novo.”, uma amiga fez a seguinte indagação: “Uma curiosidade. Você sabe se alguém neste tempo todo fez o retrato do Aleijadinho?”.

Antes de tentar uma resposta mais ou menos plausível para essa interessante e relevante pergunta, quero dizer que essa é mais uma das questões que envolvem de forma apaixonada e complexa a biografia do escultor e arquiteto, Antônio Francisco Lisboa – o Aleijadinho, nascido em Vila Rica (atual Ouro Preto) e lá sepultado em 18 de novembro de 1814.

As outras questões que escrevemos naquela matéria são: quais as obras são verdadeiramente suas? As datas de seu nascimento e morte, principalmente a primeira e qual ou quais foram as suas doenças que lhe valeram o apelido de Aleijadinho? E esta: como era o Aleijadinho, qual a sua fisionomia?

Para mim, mesmo a despeito de centenas de obras a seu respeito, mesmo muitas sendo estudos sérios e profundos e que considero válidos e pertinentes em se tratando da história de artistas do passado. Entretanto, exceto a data de seu sepultamento, todas não passam de suposições, teses e algumas especulações e depois de duzentos anos de sua morte, ainda permanecem envoltas em espessa corrubiana. Aquela bruma, uma neblina molhada, fria e doce, que em sua época e nos dias atuais ainda envolvem sua História, as pessoas, os campanários das igrejas, os espectrais e magníficos casarios e toda a vetusta Vila Rica boa parte do ano, sobretudo nos meses de junho e julho.

Penetremos nessa corrubiana...

Em 1858, seria publicado nos números 169 e 170, de 19 e 23 de agosto, no jornal Correio Oficial de Minas de Ouro Preto a primeira biografia do Aleijadinho, “Traços biográficos relativos ao finado Antônio Francisco Lisboa, distinto escultor mineiro, mais conhecido pelo apelido de Aleijadinho”, de autoria do ouro-pretano, Rodrigo José Ferreira Brêtas (1814-1866), que foi deputado provincial, professor e advogado, mas se tornaria célebre, exatamente por essa polêmica biografia.

Brêtas escreveu, 44 anos depois da morte do escultor e baseou-se em diversas fontes e depoimentos, e o mais importante deles foi o colhido da octogenária nora de Aleijadinho, Joana Lopes. É dela, portanto o primeiro retrato falado que conhecemos:

“Antônio Francisco era pardo escuro, tinha voz forte, a fala arrebatada, e o gênio agastado: a estatura era baixa, o corpo cheio e mal configurado, o rosto e a cabeça redondos, e esta volumosa, o cabelo preto e anelado, o da barba cerrado e basto, a testa larga, o nariz regular e algum tanto pontiagudo, os beiços grossos, as orelhas grandes, e o pescoço curto.” E depois de acometido por moléstias, a partir de 1777, “As pálpebras inflamaram-se, e permanecendo neste estado, ofereciam à vista a sua parte interior; perdeu quase todos os dentes, e a boca entortou-se, como sucede frequentemente ao estuporado; o queixo e o lábio inferior abateram-se um pouco; assim, o olhar do infeliz adquiriu certa expressão sinistra e de ferocidade...” (BRÊTAS, 1951, p. 23-4).

Tendo por base este retrato falado, provavelmente descrito pela nora do biografado, o escultor, Luciomar Sebastião de Jesus, de Congonhas-MG, moldou em argila uma herma que foi estampada no livro “Doenças e mistérios do Aleijadinho” de Geraldo Barroso de Carvalho em 2005, um molde falado realmente convincente. (CARVALHO, 2005, p. 263):



Há algum tempo, o pintor e escultor Elias Layon, de Mariana-MG., também, reconstituiu em esculturas uma em cedro e a outra em pedra sabão e em pintura como seria o Aleijadinho. E elas possuem alguma coisa de um retrato que se tornou oficial, que em breve veremos, como o sobretudo e uma das mãos ocultas. Estas obras se encontram expostas para visitação pública na Igreja São Francisco de Assis em Ouro Preto-MG. (https://aleijadinho.com/biografia-do-aleijadinho/):






Entretanto, antes desses dois, inúmeros artistas também dentro de suas técnicas procuraram reconstituir e retratar como seria a imagem do tão importante e polêmico escultor.

Das representações mais conhecidas, uma delas é a do pintor e desenhista chileno, radicado no Brasil, Henrique Bernardelli (Valparaiso, 1857-Rio de Janeiro, 1937), em que nos mostra o escultor, candidamente trabalhando, no interior da Igreja São Francisco de Assis em Ouro Preto, entre o clero e a nobreza (Aleijadinho em Vila Rica, 1898-1904).


https://pt.wikipedia.org/wiki/Aleijadinho#/media/Ficheiro:H_Bernardelli_-_O_Aleijadinho_em_Vila_Rica.jpg


Outra representação das mais populares foi a do desenhista e caricaturista Belmonte (1897-1947), que segundo Geraldo Guimarães Gama, seria “a representação de Antônio Francisco Lisboa quando robusto e alegre, feito segundo as indicações do historiador Ferreira Brêtas, em publicação de 1858. O artista Belmonte atuava na imprensa paulista na década de 1940.”, que de certa forma se tornaria quase que um retrato oficial do Aleijadinho, antes do outro que falaremos depois. (GAMA, 2004, p. 82-3):



No ano em que se comemoravam o Bicentenário da morte de Aleijadinho, como acontece de tempos em tempos, surgiu lá em Ouro Preto mais uma tentativa de estabelecer um novo rosto para o escultor.

Antes de prosseguir, farei uma ligeira digressão.

O mesmo aconteceu e acontece sempre com a tentativa de estabelecer um perfil para o Alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes (1746-1792), que desde o século XIX, tentam arrumar uma imagem para ele, um rosto, uma face para o herói, aliás, também mineiro. São tantas imagens, com barba, sem barba, ele acabou figurando em uma cédula de CR$ 5.000,00 (cinco mil cruzeiros). Típico, não é? Em plena Ditadura Militar. E os 5.000, logo, logo, receberiam um carimbo de rebaixamento para “5 cruzeiros novos”! Assim é a vida!

Ele que desde 1965, já era Patrono da Nação Brasileira e da Polícia Militar, virou uma nota, com o rosto antigo de barba, que depois teria outro, imberbe. E daí? Até o Lobo Guará será uma nota de 200 paus, e talvez seja o que restará dele daqui a alguns dias...


Cinco mil cruzeiros / Foto: José Eduardo de Oliveira

 


Outra imagem de Tiradentes, de José Wasth
Rodrigues (1940), que se tonaria "oficial" / Divulgação

 

E voltando ao nosso assunto, em 2014, uma nova “descoberta”.

Teria o Aleijadinho sido retratado pelo também genial pintor marianense, Manoel da Costa Ataíde (1762-1830)? Quem sabe?

Vamos primeiramente aos fatos. Sempre os fatos.

De acordo com o premiadíssimo jornalista mineiro, Gustavo Werneck, na matéria, “Aleijadinho por mestre Ataíde?”, publicada no Jornal Estado de Minas, do dia 05/11/2014, portanto treze dias antes do dia 18, data do Bicentenário da morte do Aleijadinho, “No mês de homenagens ao bicentenário de morte de Antonio Francisco Lisboa, o Aleijadinho uma polêmica se soma à biografia do escultor. No quadro ´Jesus cai carregando a cruz´, o pintor Manuel da Costa Ataíde teria dado a um soldado que aparece no canto esquerdo da tela o rosto de Aleijadinho (no detalhe). Quem afirma é o restaurador e pesquisador José Efigênio Pinto Coelho (também de Ouro preto), com base em descrição do tipo físico do entalhador mineiro feita em livro de 1858. A possível descoberta de uma nova face do artista barroco divide opinião de especialistas.”.


 


Homem vestido como soldado romano, destaque, em quadro de Ataíde, seria a retratação do gênio do barroco, segundo, José Efigênio Pinto Coelho.

E há também um porém. Segundo, a pesquisadora e restauradora, Lélia Coelho Frota, esta tela, “Jesus cai carregando a cruz”, “Embora tradicionalmente atribuídos ao Ataíde, os dois Passos que se encontram no Museu da Inconfidência não parecem ser de sua autoria. Encontra-se ausente dos mesmos o desenho culto e intencionalmente deformador da figura em que o mestre marianense excedia, e a dramaticidade expressiva patente em tantos dos seus personagens não é em absoluto a retratada nesta figura de Cristo, que nem por isso deixa de ser tocante ao transmitir um rude sofrimento.” (FROTA, 1982, 138).

O que sabemos é que Ataíde e Aleijadinho foram contemporâneos e trabalharam nos mesmos canteiros de obras religiosas, se não simultaneamente, pelo menos, Aleijadinho trabalhou primeiro.

Em Congonhas, por exemplo, Aleijadinho e sua oficina, entalharam em cedro, as esculturas dos Passos da Paixão, entre 1796 e 1799. “Entretanto, só a partir de 1808 tem efetivamente início a policromia dos Passos, com a pintura das imagens da Ceia por Manoel da Costa Athaide.”, que também encarnaria (pintaria) imagens dos Passos do Passo do Horto e da Prisão, em 1818 e 1819. (OLIVEIRA, 1984, p. 27-8).

Sem contar, que, apesar de não haver documentação comprobatória para todos os trabalhos executados, tanto por um quanto por outro, a Ataíde são atribuídos vários serviços de pintura, na Igreja São Francisco de Assis de Ouro Preto, onde Aleijadinho teria executado quase tudo, desde a planta, esculturas internas em cedro e esteatita (pedra sabão) e o frontispício também em esteatita. (CAMPOS, 2005, 22-28; VASCONCELLOS, 1979, 137-138)

E por último, o mais polêmico de todos os retratos do Aleijadinho.

O retrato falado ou retrato forjado?

Quando a esmola é muita até o santo desconfia. Mas vamos aos fatos novamente.

Em 1967, Tiradentes, virou “Patrono da Nação Brasileira e da Polícia Militar”, e em 1973, Aleijadinho iria virar, “Patrono da Arte no Brasil”. Até aqui tudo bem, eu mesmo assino embaixo. Mas o problema é a farsa ou fraude?

Mas vamos aos fatos de novo.

Vamos começar pelo fim:

“LEI Nº 5.984, DE 12 DE DEZEMBRO DE 1973.

Declara Antônio Francisco Lisboa - "O Aleijadinho" - Patrono da Arte no Brasil.

O PRESIDENTE DA REPÚBLICA,

Faço saber que o CONGRESSO NACIONAL decreta e eu sanciono a seguinte Lei:

Art. 1º É declarado Antônio Francisco Lisboa - "O Aleijadinho" - Patrono da Arte no Brasil.

Art. 2º Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação, revogadas as disposições em contrário.

Brasília, 12 de dezembro de 1973; 152º da Independência e 85º da República. EMÍLIO G. MÉDICI

Jarbas G. Passarinho”.

Sem objeções, eu mesmo assinaria embaixo novamente. Mas o problema é que a farsa ou fraude não é bem essa, o homenageado merece, o problema foi encomendarem uma face, uma aparência, um rosto, quase um corpo todo, um perfil, como diria hoje, para o Aleijadinho. Isso mesmo!

 

A questão foi uma lei anterior, da Assembleia Legislativa do Estado de Minas Gerais do ano anterior, de 1972, “que assim dispõe: Art. 1º. – Fica reconhecido, como efígie oficial de Antônio Francisco Lisboa ´O Aleijadinho´, o retrato miniatura pintado a óleo por Euclásio Penna Ventura, que se encontra depositado ao Arquivo Público Mineiro...”. Para adiantar, hoje essa enigmática obra, não voltou para a Sala dos Ex-votos, mas se encontra no Museu de Congonhas cidade originária da pintura. Antes de continuar vamos ao retrato, vamos conhecer a verdadeira face de nosso insigne artista:

 


https://www.facebook.com/maspmuseu/photos/a-pequena-pintura-de-eucl%C3%A1sio-penna-ventura-presente-na-exposi%C3%A7%C3%A3o-imagens-do-ale/10155638804011025/

 

Mas o verdadeiro problema parece, e que ninguém ligou é que essa pintura, um óleo sobre pergaminho medindo 22 cm. de largura por 27,7 cm. de altura, fosse apenas um ex-voto, da Sala dos Milagres, um dos anexos do Santuário Senhor Bom Jesus do Matosinhos, com centenas de ex-votos, onde além da Basílica se encontram os Passos e os Profetas esculpidos por Aleijadinho. E tudo começa em 1916, quando um comerciante, compra o ex-voto, depois vende para outro etc., até ser depositado no Museu Mineiro e acaba caindo nas graças de um historiador e artista russo, Miguel Theodorovitch Chquiloff, que em 1969, dá como autêntica e verídica representação do Aleijadinho, inclusive autenticada pelo perito e historiador da arte, Pietro Maria Bardi (1900-1999) e vira o “retrato oficial do Aleijadinho.” (MIRANDA, 2014, 99-104) E os deputados mineiros sacramentaram a iconoclastia. Amém.

 

E acho melhor não prosseguir. Quando vejo, que o artista, que foi perfeccionista em retratar o escultor, foi incapaz de retratar alguma de suas esculturas e ao fundo simulou o que seria um de seus profetas, que mais parece uma figura mitológica grega com uma cornucópia aos pés, cuja base é uma coluna que não existe nos profetas originais. E parece que o retrato oficial nem mãos possui... E o mais execrável, o mestre Antônio Francisco, que tinha “o cabelo preto e anelado”, teve os cabelos “esticados”, para aparecer bem na fita?

 

Eu só queria responder, para minha amiga que existem inúmeras representações de como era o Antônio Francisco de Lisboa, o Aleijadinho, um escultor pardo de voz arrebatada e um talento de gênio. E só.

 

Assim como o livro, “Aleijadinho e o aeroplano” de Guiomar de Grammont, um grande livro, diga-se de passagem, não é uma biografia de Aleijadinho, como ela mesma afirma e a biografia de Brêtas, como afirma a mesma G.G., não é uma obra de biografia, como entendemos hoje, mas uma ficção criada sobre um mito criado que foi o Aleijadinho, às vezes penso que todo esse monte de livros sobre ele não foi mais que um comércio de “ouro de tolo”, ou seja, um ouro falso, uma pirita literária infindável. E eu ao escrever isso, nada mais faço que “engolir corda” ou “entrar na onda”, como diriam os estudantes lá de Ouro Preto em minha época...

 

Mas o problema é que a coisa não é bem assim. Aquelas obras não foram criadas por computação gráfica, mãos pardas e possivelmente disformes fizeram aquelas obras primas por preços previamente determinados ainda que apenas para garantir “o pão nosso de cada dia”, como atestam muitos documentos. Antes da fotografia, os retratos dos grandes artistas eram coisas raras, e alguns autorretratos ainda são confiáveis como os de Rafael ou Rembrandt e claro, os do trágico Van Gogh. Mas dos nossos artistas, sobretudo os mais afastados de nosso tempo, brasileiros e pardos então, nem pensar. Primeiro é que os oficiais mecânicos, como eram rotulados os escultores e qualquer outra categoria que trabalhava com as mãos, mesmo reconhecidos como profissionais competentes, necessários e requisitados, não tinham um estatuto social que pudesse ser invejável na sociedade do antigo regime luso-brasileiro. Inclusive, Da Vinci e Leonardo, ou mesmo o irascível Michelangelo, podem ter frequentado as cortes de seus mecenas, mas não passavam de artistas que eram necessários e se contratava por um preço negociado e firmado em contrato. E só.

 


À esquerda da Basílica do Santuário do Bom Jesus de Matosinhos de
Congonhas, Sala dos Milagres, onde são depositados os ex-votos por
graças recebidas e de onde provavelmente tenha sido originada
a imagem oficial do Aleijadinho/2013 – Foto: José Eduardo de Oliveira

 

REFERÊNCIAS

 

ALEIJADINHO Patrono da arte no Brasil; Lei, projetos e pareceres apresentados pelo deputado Paulino Cícero de Vasconcelos. Brasília, 1977.

 

BRÊTAS, Rodrigo José Ferreira. Traços biográficos relativos ao finado Antônio Francisco Lisboa, distinto escultor mineiro, mais conhecido pelo apelido de Aleijadinho. Rio de Janeiro: Diretoria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, 1951.

 

CAMPOS, Adalgisa Arantes. (Org.) Manoel da Costa Ataíde; aspectos históricos, estilísticos, iconográficos e técnicos. Belo Horizonte: Editora C/Arte, 2005.

 

CARVALHO, Geraldo Barroso. Doenças e mistérios do Aleijadinho. São Paulo: Lemos Editorial, 2005. [1998]

 

FROTA, Lélia Coelho. Ataíde. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982.

 

FROTA, Lélia Coelho. Promessa e Milagre no Santuário do Bom Jesus de Matosinhos Congonhas do Campo Minas Gerais. Rio de Janeiro: Pró-memória, 1979.

 

GAMA, Geraldo Guimarães da. Os mistérios na vida do Aleijadinho. Belo Horizonte: Edições CLA, 2004.

 

GRAMMONT, Guiomar de. Aleijadinho e o aeroplano; o paraíso barroco e a construção do herói colonial. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.

 

LEMOS, Paulo (Org.). Aleijadinho 200 anos. Ouro Preto: Legrafar, 2014.

 

MIRANDA, Marcos Paulo de Souza. O Aleijadinho revelado; Estudos Históricos sobre Antônio Francisco Lisboa. Belo Horizonte: Fino Traço, 2014.

 

OLIVEIRA, Myriam Andrade Ribeiro de. Aleijadinho; passos e profetas. Belo Horizonte: Itatiaia, 1984.

 

PONTUAL, Roberto. Dicionário das artes plásticas no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1969.

 

VASCONCELLOS, Sylvio de. Vida e obra de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho. 2. ed. São Paulo: Nacional, 1979.

 

WERNECK, Gustavo. Aleijadinho por mestre Ataíde? In: Jornal Estado de Minas. 05/11/2014

 

José Eduardo de Oliveira é licenciado em História pela Universidade Federal de Ouro Preto. É autor de três livros, sendo o último "Bento Rodrigues: Trajetória e Tragédia de Um Distrito do Ouro", lançado em 2018.

https://www.jornaldepatos.com.br/2020/08/como-era-o-aleijadinho-retrato-falado.html