segunda-feira, 25 de maio de 2026

VILA RICA DE SYLVIO DE VASCONCELOS, UM LIVRO DE 70 ANOS QUE EU FURTEI E DEVOLVI

 

VILA RICA DE SYLVIO DE VASCONCELOS,

UM LIVRO DE 70 ANOS QUE EU FURTEI E DEVOLVI

 

José Eduardo de Oliveira

 


O objeto do desejo – Na folha de guarda tem uma assinatura ilegível e uma data: 2/5/57

Introito

 

Estava aqui, hoje nessa quinta-feira, 25/05/2026, numa ressaca dos infernos, porque ontem foi aniversário de uma rapariga de 134 anos, nossa querida Patos de Minas, que se vendeu para o bolsonarismo e os bolsonaristas daqui e de acolá, do ex-prefeito e primeira-dama, da vice e dos edis vis, e quase todo o resto da população urbana e agral, e de repente recebi uma mensagem de meu amigo, João Otávio, com uma reportagem que tinha ido ao ar no Fantástico e que era sobre um ladrão de livros raros e seus comparsas. Felizmente eles foram presos, mas as obras se esfumaçaram no ar plúmbeo das corrubianas fétidas dos receptadores.

E de repentemente, me lembrei que uma vez furtei um livro, aliás, eu acho que já furtaram vários livros meus e eu também acho que já furtei vários livros, mas esse eu devolvi.

Um pequeno livro de 16x11,5 centímetros e 318 páginas publicado em 1956, há 70 anos.

O livro é: “Vila Rica :  formação e desenvolvimento – residências”, de Sylvio de Vasconcelos. Anteriormente, em 1951, ele havia sido publicado, com o título de “Arquitetura particular em Vila Rica.” E depois, em 1977, reeditado pela primorosa
Editora Perspectiva com o mesmo título.

Do furto

Num antigo Código Penal que pertenceu ao meu pai editado em 1968, está qualificado que, “Furto – Art. 155. Subtrair, para si ou para outrem, coisa alheia móvel: Pena – reclusão, de um a quatro anos, e multa de quinhentos cruzeiros a dez mil cruzeiro”.

Já, “Roubo Art. 157. Subtrair coisa móvel alheia, para si ou para outrem, mediante grave ameaça ou violência a pessoa, ou depois e havê-la por qualquer meio, reduzindo à impossibilidade de resistência. Pena – reclusão de quatro a dez anos, e multa de três mil cruzeiros a quinze mil cruzeiros.”

Portanto, furtar é apenas  surrupiar, cabritar, passar a mão, dar o tombo sem violência. Os políticos furtam muito. Geralmente os furtadores de livros não são violentos.

 

O meu furto

 

Eu morava em Belo Horizonte e não conseguia passar no vestibular da Universidade Federal de Minas Gerais e nesse ínterim, e quando não estava namorando, trabalhando, dentro de um cinema ou de um boteco qualquer, ou viajando para “os Patos” ou Ouro Preto, eu estava lendo, em casa ou em uma biblioteca. Tinha especial predileção por duas, uma que ficava na Rua da Bahia, um instituto de idiomas chamado “ICBEU-Instituto Cultural Brasil e Estados Unidos”, que permitia a qualquer cidadão frequentar sua biblioteca e a outra, que ficava na Praça da Liberdade, que era outro Mundo à parte, a “Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa”.

Essa maravilhosa, valiosa e imensa biblioteca havia sido criada em 1954, e tinha sido originalmente um projeto de Oscar Niemeyer. Mas isso não vem ao caso.

Como em toda biblioteca ela possuía um acervo em que eram permitidos empréstimos e uma seção em que não eram permitidos empréstimos e outra também, a que se chamava, “Mineiriana”, eu acho, e que guardavam os livros sobre Minas Gerais,  que também não poderiam ser emprestados.

Assim, até ao ano de 1981, quando fui aprovado para ir estudar em Mariana, no  Curso de História da Universidade Federal de Ouro Preto, frequentei aquele santuário, e além de retirar livros para ler em casa, pesquisava também na seção de livros raros e os da Mineiriana. Esse lugar mirífico e inebriante era a meu predileto.

E ali me deparei com a pequena grande obra de Sylvio de Vasconcellos: “Vila Rica :  formação e desenvolvimento – residências.”  Li, mas não reli, eu queria o livro para mim.  Esse impulso nunca havia me dominado tão fortemente. Tudo no livro me fascinava, a cor da capa, o peso dele, as fotografias em preto-e-branco, as ilustrações, os mapas. E  escrita de Sylvio de Vasconcellos que até então nunca tinha visto ou ouvido falar? Eu cheirava o livro. Sonhava com ele. Até então nunca tinha sentido tanto desejo e tesão por nada, nem por ninguém, nem por aquela mulher que me fazia perder noites de sono e era “a razão de minhas cachaças”, naqueles sórdidos tobas sujos da rua da Bahia, principalmente os da Galeria do Edifício Maletta e imediações. E além disso, a história de Vila Rica ali, era a mais perfeita história de Ouro Preto que eu amava tanto e onde depois fui morar por cerca de cinco anos.

Voltei lá vários dias. Mas não tinha coragem. Mas aquela coisa não saía de minha cabeça. Pensei até em pegar o livro e sair correndo. Mas tive calma.

Naquela época eu ainda tinha alguma consciência sobre o que era certo ou errado? Ainda era puro?

E lembrei aqui de Eduardo Frieiro, e de seu livro, “O Diabo na livraria do Cônego”, que seguramente frequentou aquela biblioteca inúmeras vezes. Eu era o diabo ladrão na Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa.

Não adiantou nada. Em certa noite, acho que planejei, coloquei uma blusa de frio, e nem sei se fazia frio e fui para a Biblioteca e penetrei na “Mineiriana”. Essas seções de livros raros sempre são separadas do resto e quase sempre desertas, lugares propícios para perpetrar ações furtulentas. E naquela época não existiam câmeras de segurança e as bibliotecárias e bibliotecários confiavam em sua clientela.

Era naquela noite. Tinha que ser. Eu suava frio, talvez tremesse. Estudei o ambiente em todos os ângulos e sorrateiramente ou apressadamente não me lembro, enfiei a coisa, o objeto que queimava em minhas mãos na parte da frente da calça abaixei a blusa. Estava feito. E agora? Como sair?

E para sair, parecia um autômato, lívido, devia estar não pálido, mas verde.

Saí do prédio esgueirando como uma serpente, atravessei a praça da Liberdade desci a rua da Bahia, passando pela rua  Tupis, atravessei a Avenida Amazonas e na rua Tamoios tomei um ônibus coletivo até ao Barrio João Pinheiro, no oeste do inferno que era aquela cidade onde os horizontes já não eram mais belos. Sem olhar para trás temendo ser abordado a cada segundo.

Em casa, já no meu quarto, escondi o livro entre uns livros que possuía. Não dormi naquela noite.

De madrugada tive coragem de folhear o livro. Agora era meu. Além dos carimbos e registros bibliotecário haviam algumas marcas humanas, escritos dedicatórias que hoje ignoro o que seriam.

Mas quando a aurora, não são rósea como as de Homero, clareou o quarto também projetou um facho de luz cruel em mim. Senti que havia cometido um crime que não sabia qualificar e que talvez não tivesse em nenhum artigo daquele velho Código Penal de meu pai.

Primeiro as questões: eu precisava daquele livro? Quem mais iria precisar dele? Eu privei quantas pessoas daqueles conhecimentos contidos nele? O arrependimento me apunhalou como os “nobres colegas” ao arrogante César.

Estava com o livros nas mãos como que um cadáver que eu teria que ocultar e não sabia onde e nem como ou uma quantia que eu não sabia como gastar. E agora?

Vou devolver, pensei. Vou devolver!

Como?

Chegar lá e falar que peguei sem querer? Vou mandar pelo correio com remetente falso?  Vou deixar em cima da uma das mesas da biblioteca?

Não! vou deixar no mesmo lugar de onde retirei.

Meus amigos e minhas amigas, desfazer um crime é mil vezes pior que cometê-lo mil vezes novamente.

Refazer os mesmos caminhos até à estante. E o pior, muito pior foi o medo ser apanhado, não cometendo o furto, mas desfurtando. Só que desta vez não fui serpenteando como uma cobra mas, rápido como um rato que fugia com um naco de queijo, só que eu ia devolver o queijo, o livro, que queimava dentro de minha calça e o pior, perto de uma coisa que no momento estava inerte e frio como gelo.

Passei por tudo novamente e consegui. Consegui reparar o mal feito, mas tudo tem reparação?

“Disse o corvo, ‘Nunca mais’.”  Nunca mais disse o Corvo de Edgar Allan Poe.

E disse nunca mais farei isso de novo.  Mas na verdade, nunca mais voltei àquele templo conspurcado para sempre. 

 

Naquela época eu não sabia que já existia uma edição do livro, ‘Vila Rica” de 1977, em toda e qualquer livraria de Belo Horizonte e que, a edição de 1956 não era tão rara assim. Inclusive, hoje, na Estante Virtual, existem 9 exemplares desse livro, praticamente a preço de bananas. Mas será que isso iria importar? Eu se soubesse não iria fazer o que fiz, por causa daquele livrinho?  Não sei!

 

Ps.  Hoje mesmo consultei o site da “Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa”, e o livro ainda está lá, não sei se é o mesmo:


“Vila Rica : formação e desenvolvimento, residências/ Sylvio Vasconcellos. -

Rio de Janeiro : MEC/INL, 1956.

Exemplar nº161846 doação: Valmiki Villela Guimarães.
318 p.: il. ; 17 cm

O exemplar da Academia Mineira de Letras contém várias anotações feitas por Eduardo Frieiro no interior da obra em forma de comentários, análises, correções e acréscimo de informações ao conteúdo original.” - http://200.198.28.214/acervo/36120

 

Ps. 2  Sylvio de Vasconcellos, nasceu em Belo Horizonte em 1916, formou-se em arquitetura na Universidade Federal de Belo Horizonte em 1944. Com o Golpe Militar de 1964, e a aposentadoria compulsória em 1969, sua carreira foi interrompida em território brasileiro, mas continuou com suas aulas e sua produção bibliográfica no exílio na França, Chile e depois em Washington nos Estados Unidos onde morreu em 1979.

 

Infra, alguns livros e artigos que possuo aqui em minha biblioteca. 

Em tempo, todos conseguidos com o suor de meu rosto – nenhum furtado - como professor de História nos arrabaldes nessa cidade que atualmente fede, fedor oriundo não só de atividades humanas com fins lucrativos, mas das atividades desses mesmos seres humanos ao pensar, ou melhor, ao tentarem pensar. Eu acho.

 

SYLVIO DE VASCONCELLOS – BIBLIOGRAFIA, MINHA

 

1951- Arquitetura particular em Vila Rica. Belo Horizonte: Velloso & Cia. Ltda., 1951.

 

1951 - Arquitetura no Brasil: Sistemas Construtivos.  5.ed. [1979] Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais, 1956

 

1956 - Vila Rica : Formação e Desenvolvimento – residências. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Cultura, 1956.

 

1956 - Arquitetura Colonial Mineira. In: Primeiro Seminário de Estudos Mineiros. Belo Horizonte: Universidade de Minas Gerais, 1956. P. 59-77.

 

1959 – Formação urbana do Arraial do Tejuco. In: Arquitetura civil II. São Paulo: FAUUSP/MEC/IPHAN, 1975. P. 99-114.

 

1960 - Arquitetura: Dois Estudos. 2.ed. Goiânia: MEC/SESU/PIMEG-ARQ/UCG, 1983.

 

1966 - Mineiridade: ensaio de caracterização. São Paulo: Abril S. A. Cultural e Industrial, 1981.

1968 - Minas : Cidades Barrocas. 2.ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1976.

 

1977 - Vila Rica : Formação e Desenvolvimento – residências. São Paulo: Editora Perspectiva, 1977.

 

1979 - Vida e obra de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho. São Paulo:    Editora Nacional, 1979.

 

2004 -  LEMOS, Celina Borges (Org.) Sylvio de Vasconcellos : arquitetura, arte e cidade – textos reunidos. Belo Horizonte : BDMG Cultural, 2004 [com 60 artigos]

 

 

 

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