segunda-feira, 15 de maio de 2023

Sam, toque Vapor Barato, mais uma vez...

 

Sam, toque Vapor Barato, mais uma vez...

 

O mistério

Que ninguém sabe.

Para onde o amor vai

Quando se vai?

Lera Lynn

 

 

Cartaz do filme – divulgação.

No ano passado o filme, “Casablanca”, fez oitenta anos. Para muitos é um filme datado. Para mim, ele não envelheceu nada, ou melhor, como os vinhos que são consumidos à rodo em toda a história, ele ficou melhor com a idade. Aliás, como todo clássico, o tempo os preserva e os aprimora.

Este filme, segundo a Wikipédia,  foi baseado na peça teatral Everybody Comes to Rick's (Todo mundo vem para o café de Rick), de Murray Burnett e Joan Alison, e foi roteirizado por  Julius J. Epstein, Philip G. Epstein, Howard Koch e Casey Robinson.  O filme recebeu três estatuetas do Oscar de 1942, melhor filme, melhor direção e melhor roteiro.

No filme “Casablanca”, de 1942, dirigido por Michael Curtiz, ao pianista Sam [Dooley Wilson]  sempre era pedido para, cantar a canção “As Time Goes By”.

Essa canção,  “As Time Goes By” [Com o passar do tempo], foi escrita por Herman Hupfeld em 1931. E ela era que unia o pianista a um dos pares mais apaixonados de toda a história do cinema, Rick Blaine [Humphrey Bogart] e Ilsa Lund [Ingrid Bergman]. De toda história de amor já filmada. E como toda história de amor, uma história de amor impossível. Impossível, mas não trágica, porque os apaixonados, seguem vivos. E talvez pensando, em alguma possibilidade. “Eu ainda não morri”, podem ter dito ou pensado...

As músicas permeiam toda a película, aliás, as músicas permeiam todas as nossa vidas, na alegria e na tristeza, no nascimento e na morte. No amor e no ódio. E também, em algum momento do filme, nos salões do “Saloon” de Rick Blaine, o “Rick’s Café Américain”, os alemães começam a cantar a música alemã, “Die Wacht am Rhein (A Guarda do Reno), quase um hino alemão, e aí em uma das passagens mais emocionantes do filme, os franceses se levantam e começam a cantar a “La Marseillaise” (A Marselhesa), hino da França. É bom lembrar, que o filme foi rodado em, 1942, em plena Segunda Guerra Mundial, e em Casablanca, no Marrocos, apesar de ser uma colônia francesa de uma França ocupada pelos nazistas, ali, era uma terra de ninguém cheia de nazistas, franceses e gente de todas as partes do mundo, inclusive marroquinos, tanto heróis quanto traidores, inclusive o americano, Rick um  caustico, desiludido e misterioso “apátrida”.

Sam [Dooley Wilson, Rick Blaine [Humphrey Bogart] e Ilsa Lund [Ingrid Bergman] – IMDB.

Já, “Vapor Barato” [1971], de Jards Macalé e Wally Salomão, já foi gravada e regravada por inúmeros cantores e cantoras desde o seu lançamento, mas minha intérprete predileta desde sempre foi Gal Costa, a diva [1945-2022].  E não tem nada, nada mesmo de elo de ligação, com Casablanca e o resto disso tudo.

Gal Costa na década de 1970 - Wikipédia

Exceto pelo fato, que eu, em todos os butecos que chegava e tinha um cantor ou uma cantora eu pedia para tocar “Vapor Barato”, mais uma vez...  Isso aconteceu dentre outros lugares, em Belo Horizonte, Patos de Minas, Ouro Preto, Mariana, Diamantina, São João del Rei, Uberaba, pelo que eu me lembre nesse momento. Como no filme: Sam, toque Vapor Barato, mais uma vez...

E que, na música como no filme, alguém estava indo embora e alguém ficando, mas ambos apaixonados.

Bem, como no filme: “Sempre teremos Ouro Preto”.  E a mesma corrubiana...seja do aeroporto de  Casablanca, seja da praça da praça Tiradentes da antiga Villa Rica, seja de nossos destinos...a solidão de quem vai e de quem fica...

Garçom, traga o meu amigo Jack D., para a saideira...

E Gal, cante Vapor Barato, mais uma vez...

Oh, sim, eu estou tão cansado
            Mas não pra dizer
            Que eu não acredito mais em você
  [...]

Oh, sim, eu estou tão cansado
            Mas não pra dizer
            Que eu 'to indo embora
            Talvez eu volte
            Um dia eu volto
            Mas eu preciso esquecê-la (eu preciso)
            Ah, minha grande
            Ah, minha pequena
            Ah, minha grande obsessão [...]

Vapor barato [1971]

Letra de Jards Macalé e Wally Salomão

Oh, sim, eu estou tão cansado
Mas não pra dizer
Que eu não acredito mais em você
Com minhas calças vermelhas
Meu casaco de general
Cheio de anéis
Vou descendo por todas as ruas
E vou tomar aquele velho navio

Eu não preciso de muito dinheiro
Graças a Deus
E não me importa, honey

Oh, minha honey baby
Baby, honey baby
Oh, minha honey baby
Oh, minha honey baby
Honey baby

Oh, sim, eu estou tão cansado
Mas não pra dizer
Que eu 'to indo embora
Talvez eu volte
Um dia eu volto (quem sabe)
Mas eu preciso esquecê-la (eu preciso)
Ah, minha grande
Ah, minha pequena
Ah, minha grande obsessão

Oh, minha honey baby
Baby, honey baby
Oh, minha honey baby
Baby, honey baby

Oh, sim, eu estou tão cansado
Mas não pra dizer
Que eu não acredito mais em você
Com minhas calças vermelhas
Meu casaco de general
Cheio de anéis
Vou descendo por todas as ruas
E vou tomar aquele velho navio

Eu não preciso de muito dinheiro
Graças a Deus
E não me importa, honey

Oh, minha honey baby
Baby, honey baby
Oh, minha honey baby
Oh, minha honey baby
Honey baby

Oh, sim, eu estou tão cansado
Mas não pra dizer
Que eu 'to indo embora
Talvez eu volte
Um dia eu volto
Mas eu preciso esquecê-la (eu preciso)
Ah, minha grande
Ah, minha pequena
Ah, minha grande obsessão

Oh, minha honey baby
Baby, honey baby
Oh, minha honey baby
Baby, honey baby...

Publicado originalmente no Jornal de Patos em 15.05.2023,

https://www.jornaldepatos.com.br/2023/05/sam-toque-vapor-barato-mais-uma-vez.html

Aqui sofreu ligeiras modificações.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023

Sobre o artigo de Luís André Nepomuceno: O Oriente no olhar de Camões

 

Sobre o artigo de Luís André Nepomuceno: O Oriente no olhar de Camões

Luís de Camões Jornal de Patos segunda-feira, fevereiro 13, 2023

Por José Eduardo de Oliveira

 

Luiz Vaz de Camões publicou os Lusíadas em 1572 / Divulgação

Em 1572, depois de uma epopeia, maior ou igual a vida e a trajetória de seu autor, foi publicado em Portugal o livro, Os Lusíadas, de Luís de Camões. O livro, segundo Luís André Nepomuceno, “Os Lusíadas, projeto ambicioso, revelador da espantosa erudição do poeta, narra a história da viagem inaugural de Vasco da Gama que, entre 1497 e 1499, margeou a costa atlântica da África (já conhecida e navegada dos portugueses) e descobriu o caminho marítimo para a Índia.”.

No entanto, se Camões canta as façanhas heroicas, grandiosas e ingentes de Vasco da Gama, “o forte capitão” [1464-1524], e claro da lusa gente, Nepomuceno nos desvela em seu artigo, que a conquista do “Oriente” e a expansão ultramarina portuguesa nesse momento, foi comandada por um fidalgo, que “...enforcou gentes, cortou mãos e pés, bombardeou cidades, assaltou barcos, queimou tripulações vivas e fez mais o que lá não se contou.”. E ontem, como hoje, claro através de vassalos desclassificados, o carniceiro, o genocida, é transformado em herói, em mito...

Só para lembrar, o português, Luís Vaz Camões [c. 1524-1580] de biografia, até hoje com lacunas, além dos Lusíadas, publicou poesias líricas e peças teatrais. E a sua própria vida foi uma epopeia quase que inverossímil: fidalgo metido a valentão? Galanteador? Um humanista, no sentido de saber quase tudo de seu tempo em termos culturais, que foi soldado e que perdeu um olho em nome del rei? Um exilado para o “oriente” que foi encarcerado mais de uma vez? Que em sua volta para Portugal, além de ter sido um náufrago teve que mendigar comida e passagem de volta?

Sobre o artigo, de Luís André Nepomuceno, “O Oriente no olhar de Camões: uma verdade que convém”, publicado na importante, Afro-Ásia, uma das mais longevas e sérias revista do gênero, no mercado desde 1965, que viu inúmeras publicações serem extintas, só posso escrever: que texto magistral, como sempre! Pode parecer um chavão, mas nunca um chaveco.

E sobre Luís André Nepomuceno, já escrevi alhures e repito: professor de literatura, que além de inúmeras palestras e artigos, lançou seu primeiro livro, “A Musa Desnuda e o poeta tímido: o petrarquismo na arcádia brasileira”, em 2002. Depois, “Antipalavra”, de 2004, em 2008, veio, “Petrarca e o Humanismo”. E inúmeros outros, como o último, “Relicário de todas as coisas”, de 2022. E há uma década, ou mais, vem pesquisando sobre o renascimento português.

Sobre as conquistas ultramarinas portuguesas eu já sabia que aquilo ali foi uma “sangreira épica”, como diria E. Wilson, sobre a Guerra Civil Americana...Em minha de-formação lá em Villa Rica, na década de oitenta, a década de tudo para mim, eu já havia corrido os olhos, dentre outros livros, em K. M. Panikkar, “A dominação ocidental da Ásia: do século XV aos nossos dias.” Livro raro e quase proibido naqueles tempos, e primordial para esses assuntos de que trata Nepomuceno. Mas não com tanta intensidade e narrado pelos cronistas coevos... que Nepomuceno cita em profusão.

 

Rota de Vasco da Gama descrita nos Lusíadas / Encyclopaedia Britannica

 

O que está acontecendo com os yanomamis hoje, tem chocado aqui e o resto do mundo, e mostra que crimes dessa ordem são cometidos por incrível que pareça, em nosso quintal, mas na verdade, não precisamos de lupas em nem de um iphone, para sabermos que genocídios, mais sanguinolentos, velados ou não, estão acontecendo em todas as partes desse Mundo imundo nesse exato momento. Mas são injustificáveis e imperdoáveis, sem anistia. Só que agora, os fatos são ao vivo e em cores, cinzentas, por sinal. E em meu teclado e em minha tela, sinto cheiro de sangue e carnes humanas em decomposição cotidianamente, diuturnamente.

E não se esqueçam nunca, a empreitada orquestrada por Vasco da Gama no Oriente, também acontecia na “Terra dos Papagaios” que depois se chamaria Brasil, e o genocídio aqui, teve seu começo com a chegada de outro português, Pedro Álvares Cabral, ao sul Bahia em 1500. E para um ex-presidente do Brasil, que se encontra em autoexílio ou foragido conspirando golpes de estado, e logicamente mais genocídios, toda a questão indígena desde então, incluindo aí os yanomamis, se resume nessa premissa: "Até vale uma observação neste momento: realmente a cavalaria brasileira foi muito incompetente. Competente, sim, foi a Cavalaria norte-americana, que dizimou seus índios no passado e hoje em dia não tem esse problema no país.".

 

E como K. M. Panikkar, citado no artigo de Nepomuceno nos diz, “os europeus sempre se comportaram em relação aos asiáticos como se os princípios do direito internacional não se pudessem aplicar fora da Europa, como se a dignidade moral dos povos da Ásia não pudesse colocar-se no mesmo pé com a deles.”.

Mas como Nepomuceno menciona, os “orientais” também, fizeram, fazem e ainda farão o mesmo, genocídios, genocídios e genocídios. E parece, que os portugueses foram os primeirões ali na área, mas depois vieram os outros colegas do velho e sujo continente, fossem católicos, protestantes ou judeus, e se espalharam pelo resto das terras de infiéis e outros semoventes sem lei e sem alma, para civilizá-los e sifilizá-los, como escreveu Chico Buarque. Aqui, do outro lado, Hernán Cortés et caterva fariam o mesmo, com os mesmos tipos de armas e o mesmos escopos sem escrúpulos. Na África, foram inúmeros Gamas e “a mercadoria” que era embarcada em tumbeiros, também já fazia o mesmo com os seus, que tinham a mesma tonalidade epitelial. Mas desde o neolítico esses bípedes só fizeram isso, pelo menos, a maioria deixou de ser antropófaga e aprenderam a ler, escrever e ditar leis. E nessa sua marcha, sempre ao seu lado, uma cruz, um sacerdote ou um altar limpo ou sujo de sangue, amém.

Camões, era poeta, e como alguns deles, transformou o horror em sublime. E ele mesmo, poeta-soldado e caolho por causa disso, não sangrou algum “outro”, “por boniteza e percisão”? Assim parafraseando um outro poeta e conterrâneo seu, Fernando Pessoa: “Ó Lusíadas, quanto de sua tinta são sangue de orientais e africanos?”.

E em tempo, o velho, Gama, como sabemos, não leu o monumento literário que o imortalizou, morreria quase meio século antes da publicação “d´Os Lusíadas” de Camões. Entretanto, Gama, construiu um imenso cemitério no oriente, mesmo não sendo coveiro, como uns e outros aqui, e seu próprio mausoléu e ficou lá em Cochim, na Índia...

Camões, retornou a Portugal, publicou seu livro, teve sua glória em vida e da mesma forma, em vida experimentou sua decadência e seu esquecimento e o Império que cantou demorou alguns séculos para cair e viver como ainda hoje vive o lamento dos mortos que surgiram das grandes e efêmeras conquistas, e as glórias do passado, e “as verdades que convém”... Mas, sem dúvida nenhuma ano que vem os quinhentos anos de seu nascimento serão merecidamente rememorados, paradoxalmente.

 

NEPOMUCENO, L. A. O Oriente no olhar de Camões: uma verdade que convém. Afro-Ásia, Salvador, n. 66, p. 45–76, 2023. Disponível em: https://periodicos.ufba.br/index.php/afroasia/article/view/49522.

José Eduardo de Oliveira é licenciado em História pela Universidade Federal de Ouro Preto

PUBLICADO ORIGINALMENTE NO JORNAL DE PATOS:

https://www.jornaldepatos.com.br/2023/02/sobre-o-artigo-de-luis-andre-nepomuceno.html

13 de fevereiro de 2023